Ativos tokenizados: quando a propriedade financeira começa a funcionar
Dinheiro, títulos públicos, fundos, ações, crédito e real assets estão entrando em uma nova arquitetura — cada um por uma porta diferente
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- Publicado em
- 22 de agosto de 2026
- Setores
- Tecnologia
- Mercado de Capitais
- Crédito
- Real Estate
Tese central. Nem todo ativo tokenizado é a mesma coisa. Dinheiro, títulos públicos, fundos, ações, crédito e ativos reais entram nessa arquitetura por portas diferentes, com ganhos econômicos muito distintos — e o mercado está deixando de perguntar "é possível?" para perguntar "para que serve?".
Durante décadas, a maior parte dos ativos financeiros já foi, em algum sentido, digital.
Ações aparecem em contas eletrônicas.
Títulos são registrados em sistemas.
Fundos são administrados por infraestruturas digitais.
Créditos são controlados em bancos de dados.
O investidor raramente toca o ativo que possui.
Ele enxerga um registro.
Esse fato cria uma pergunta inevitável:
se os ativos já são digitais, o que exatamente muda quando passam a ser tokenizados?
A resposta está menos na aparência do ativo e mais naquilo que ele passa a conseguir fazer.
Um ativo tokenizado pode continuar representando exatamente o mesmo risco econômico de antes. Uma ação continua exposta ao desempenho da empresa. Um título continua dependente da solvência do emissor. Um crédito continua dependente da capacidade de pagamento do devedor. Um imóvel continua dependendo de localização, ocupação, renda e preço.
Mas a infraestrutura em torno desse ativo pode mudar.
- O registro pode tornar-se programável
- A transferência pode ocorrer em novas redes
- O ativo pode ser integrado a dinheiro digital
- Pode ser utilizado como garantia
- Pode ser distribuído com maior granularidade
- Pode carregar determinadas regras
- Pode ser convertido entre formatos
Pode participar de uma liquidação Delivery versus Payment.
Pode, em alguns casos, ganhar uma camada de dados e de automação que simplesmente não existia antes.
É por isso que tokenização não deve ser analisada como uma nova classe de ativos.
Ela precisa ser compreendida como uma nova arquitetura para classes de ativos já existentes.
E esse é um ponto decisivo para a tese da MTX Capital.
O valor econômico da tokenização não está em produzir mais tokens.
Está em identificar quais ativos melhoram materialmente quando ganham uma camada programável.
O mercado está deixando de perguntar “é possível?” e começando a perguntar “para que serve?”
Durante boa parte da última década, tokenização foi tratada como uma demonstração tecnológica.
Uma instituição anunciava que havia colocado um título em blockchain.
Outra emitia uma cota tokenizada.
Uma terceira criava um projeto experimental.
O simples fato de um ativo estar on-chain era apresentado como inovação suficiente.
Essa fase está mudando.
Em julho de 2026, a DTCC — uma das principais infraestruturas pós-negociação dos mercados americanos — converteu ativos custodiados na DTC em representações tokenizadas utilizadas em operações reais envolvendo mais de 30 participantes. Os testes incluíram Treasury/repo com Delivery versus Payment, ações com DVP, empréstimo de títulos, transferência de tokens e workflows de margem de contraparte central. O serviço comercial de tokenização está previsto para outubro de 2026. DTCC
Esse caso é importante justamente porque não começa com uma promessa abstrata.
Começa com infraestrutura existente, ativos conhecidos e problemas concretos.
- Colateral
- Liquidação
- Empréstimo de títulos
- Mobilidade
- Interoperabilidade
A pergunta deixa de ser:
“Conseguimos representar uma ação em blockchain?”
E passa a ser:
“Conseguimos fazer essa ação cumprir funções financeiras de maneira melhor?”
Essa mudança de pergunta caracteriza o início de uma fase muito mais relevante.
Nem todo ativo tokenizado é a mesma coisa
A expressão “ativo tokenizado” é ampla demais.
Ela pode esconder arquiteturas completamente diferentes.
Para analisar esse mercado, é útil separar três modelos.
O primeiro é o digital twin.
Existe um ativo reconhecido na infraestrutura tradicional e cria-se uma representação digital vinculada a ele.
A DTCC está seguindo justamente essa lógica em seu serviço: os títulos continuam custodiados na DTC e podem ser convertidos entre forma tradicional e tokenizada, preservando direitos, proteções e titularidade econômica. DTCC
O segundo modelo é o ativo nativamente digital.
Nesse caso, o instrumento não nasce primeiro em uma infraestrutura tradicional para depois ser tokenizado.
Ele já é emitido, registrado e administrado desde a origem dentro da infraestrutura programável.
O próprio BIS diferencia essas duas arquiteturas e observa que, embora versões tokenizadas de ativos custodiados fora da plataforma possam gerar ganhos, explorar plenamente a programabilidade exige, em determinados casos, instrumentos emitidos e mantidos nativamente na nova infraestrutura. Banco de Compensações Internacionais
O terceiro modelo é uma exposição sintética ou representativa, em que o token acompanha determinado ativo ou preço, mas o investidor não necessariamente possui diretamente o instrumento subjacente.
Essa diferença é crítica.
Dois tokens podem acompanhar exatamente a mesma ação e oferecer direitos completamente diferentes.
Um pode representar um ativo efetivamente mantido em custódia.
Outro pode representar uma obrigação contratual do emissor.
Outro pode replicar apenas economicamente a variação de preço.
Visualmente, os três podem parecer semelhantes.
Juridicamente e financeiramente, não são.
Por isso, uma regra deve permanecer constante:
não pergunte apenas qual ativo o token acompanha. Pergunte qual direito o token entrega.
Dinheiro: o primeiro ativo que precisa funcionar on-chain
Talvez pareça estranho começar uma análise de ativos tokenizados pelo dinheiro.
Mas essa ordem é essencial.
Nenhum mercado tokenizado consegue atingir todo o seu potencial se o ativo funciona em uma infraestrutura programável e o dinheiro necessário para comprá-lo permanece em outra.
O BIS vem defendendo justamente a importância de reunir dinheiro e ativos dentro de infraestruturas compatíveis. Em seus relatórios de 2025 e 2026, a instituição descreve uma arquitetura baseada em reservas de banco central tokenizadas, depósitos bancários tokenizados, outras formas reguladas de dinheiro privado e ativos tokenizados coexistindo em plataformas programáveis. Isso permitiria integrar mensageria, reconciliação e transferência e facilitar liquidação atômica com finalidade jurídica. Banco de Compensações Internacionais
Esse ponto muda a compreensão do mercado.
Tokenizar ações ou fundos pode produzir algum benefício isoladamente.
Mas o verdadeiro salto acontece quando o ativo consegue ser trocado por dinheiro dentro de uma infraestrutura compatível.
A tokenização de dinheiro, portanto, não é um caso de uso paralelo.
É uma condição para que outros ativos tokenizados funcionem plenamente.
Stablecoins mostraram que existe demanda por dinheiro digital continuamente disponível
Stablecoins são uma das aplicações mais desenvolvidas dessa lógica.
Elas demonstraram que unidades digitais referenciadas a moedas tradicionais podem circular em redes que operam continuamente.
Mas stablecoins não são o único desenho possível.
Bancos vêm desenvolvendo depósitos tokenizados.
Bancos centrais estudam diferentes arquiteturas digitais.
Fundos monetários tokenizados funcionam, em determinadas situações, como instrumentos de gestão de liquidez.
A questão estrutural é a mesma:
o dinheiro começa a adquirir características de software.
- Pode circular continuamente
- Pode responder a regras
- Pode integrar-se diretamente a ativos
- Pode participar de contratos programáveis
Esse será aprofundado mais adiante nesta jornada em “O dinheiro não dorme mais”.
Por enquanto, o ponto que importa é simples:
sem uma boa perna de dinheiro, mercados tokenizados continuam incompletos.
Títulos públicos: talvez o laboratório ideal
Se dinheiro é a primeira peça, títulos públicos são uma das classes mais naturais para adoção institucional.
- A razão é econômica
- São ativos amplamente conhecidos
- Padronizados
- Utilizados como benchmarks
- Usados intensamente como garantias
- Presentes em operações de repo
- Essenciais à gestão de liquidez
O BIS observa que títulos públicos desempenham papel central no sistema financeiro e destaca o potencial de infraestruturas programáveis para automatizar operações de colateral, verificar continuamente critérios de elegibilidade e executar transferências condicionais. A instituição também registrou que mais de 20 emissões tokenizadas de soberanos, supranacionais e agências já haviam totalizado mais de US$ 4 bilhões até seu relatório de 2025. Banco de Compensações Internacionais
Esses números ainda são pequenos diante do mercado global de dívida pública.
Mas o caso de uso é significativo.
A pergunta não é apenas se podemos possuir um Treasury tokenizado.
- É o que conseguimos fazer com ele
- Utilizar como colateral
- Movimentar entre infraestruturas
- Executar repo
- Liquidar contra dinheiro digital
- Automatizar determinados eventos
- Melhorar visibilidade sobre garantias
Essa utilidade financeira pode ser muito mais importante do que a representação digital em si.
Colateral pode ser a porta de entrada institucional
Esse ponto merece atenção especial.
O sistema financeiro depende de colateral.
Garantias reduzem risco e permitem que instituições realizem operações em escala muito maior do que seria possível sem elas.
- Mas colateral possui um problema operacional
- Precisa ser localizado
- Valorizado
- Verificado
- Movimentado
- Substituído
- Executado
- Reconciliado
Em maio de 2026, a própria DTCC destacou que a tokenização de colateral poderia liberar bilhões de dólares em eficiência de capital e transformar a gestão de liquidez. Dois meses depois, seus testes reais envolveram exatamente esse tipo de uso. DTCC
Esse talvez seja um dos sinais mais importantes sobre onde a tokenização pode gerar valor primeiro.
Não necessariamente vendendo pequenos pedaços de ativos para milhões de pessoas.
Mas fazendo com que ativos já existentes possam circular melhor entre instituições.
Fundos: quando investimento e liquidez começam a conversar
Fundos são outra classe particularmente adequada.
Uma cota de fundo é, por natureza, uma representação financeira de uma carteira de ativos.
Isso torna a estrutura relativamente compatível com tokenização.
- O potencial aparece em diferentes dimensões
- Distribuição
- Custódia
- Transferência
- Integração com carteiras digitais
- Liquidez operacional
- Colateral
E, em alguns casos, possibilidade de utilizar capital investido sem precisar transformá-lo previamente em caixa.
Esse mercado já passou da fase puramente experimental.
Em agosto de 2026, a BlackRock lançou novas classes tokenizadas de fundos monetários, combinando características de fundos regulados com infraestrutura baseada em blockchain. A própria companhia posicionou esses produtos como parte da evolução da gestão de caixa institucional. BlackRock
A relevância está em algo maior do que “um fundo em blockchain”.
Imagine uma tesouraria corporativa.
Ela precisa manter liquidez.
Historicamente, parte dos recursos permanece em caixa enquanto outra parte fica aplicada.
Quanto menor a fricção entre instrumento remunerado e dinheiro utilizável, menor pode ser a necessidade de manter capital totalmente ocioso.
A fronteira entre investimento de curtíssimo prazo e liquidez operacional começa a diminuir.
O fundo tokenizado deixa de ser apenas investimento e pode virar infraestrutura de caixa
Esse é um bom exemplo de como analisar tokenização corretamente.
A pergunta não deveria ser:
“Por que colocar um money market fund em blockchain?”
A pergunta deveria ser:
“O que passa a ser possível depois?”
Em abril de 2026, um arranjo envolvendo BlackRock, Standard Chartered e OKX passou a permitir que cotas do BUIDL, fundo tokenizado de Treasuries de curto prazo, fossem utilizadas como colateral remunerado em operações institucionais. Em julho, o fundo também foi disponibilizado em nova infraestrutura voltada a pagamentos e movimentação de dinheiro on-chain. Securitize
- Perceba a evolução
- Primeiro, um fundo é tokenizado
- Depois, ele ganha distribuição
- Depois, passa a funcionar como colateral
- Depois, integra-se a outras redes
- O ativo começa a adquirir novas funções
É isso que significa tornar patrimônio programável.
ETFs e ações: um caso paradoxal
À primeira vista, ações e ETFs parecem candidatos óbvios para tokenização.
- São ativos populares
- Altamente padronizados
- Com enorme base de investidores
Mas exatamente por isso existe uma questão interessante.
Mercados acionários desenvolvidos já funcionam extremamente bem.
- Custos de negociação podem ser muito baixos
- Liquidez é elevada
- Acesso é relativamente simples
- Infraestrutura de custódia é robusta
- Qual é então o ganho marginal?
É nesse tipo de classe que a tokenização precisa justificar sua existência não apenas pela negociação, mas por funcionalidades adicionais.
- Trading estendido
- Uso como colateral
- Transferência entre infraestruturas
- Integração com carteiras digitais
- Fractionalização mais granular
- Liquidação programável
Distribuição a usuários que já operam em ambientes on-chain.
A DTCC demonstrou em julho de 2026 transações tokenizadas envolvendo ações, incluindo DVP e transferências digitais, sem retirar necessariamente os ativos da infraestrutura tradicional de custódia. DTCC
O caso mostra uma tese importante.
A tokenização de ações provavelmente não precisa competir com ações tradicionais.
Pode simplesmente adicionar outra camada de utilização.
Um ETF tokenizado continua sendo um ETF
Esse princípio precisa permanecer claro.
A tecnologia não altera os fundamentos econômicos.
Se o token é um digital twin de uma cota de ETF e preserva os direitos correspondentes, a exposição econômica continua vindo do fundo.
O desempenho continua dependendo dos ativos da carteira.
A existência de blockchain não cria rentabilidade adicional.
O que muda é a infraestrutura operacional.
Esse é um excelente exemplo da tese central da MTX:
tokenização não melhora necessariamente o ativo. Pode melhorar o que conseguimos fazer com ele.
Ações nativamente digitais podem ser mais transformadoras do que digital twins
Existe, entretanto, um segundo estágio.
Em vez de pegar uma ação tradicional e criar sua representação digital, uma empresa poderia emitir o instrumento originalmente dentro de uma infraestrutura programável.
Nesse cenário, o ativo já nasce digital.
A propriedade pode ser registrada no novo ambiente.
Eventos societários podem ser integrados.
Dividendos podem ser processados de maneira mais programável.
Determinadas regras de transferência podem estar incorporadas à infraestrutura.
É uma arquitetura muito mais profunda.
Mas também exige muito mais coordenação regulatória e institucional.
É por isso que o caminho mais provável é evolução gradual:
- primeiro equivalência
- Depois funcionalidade
- Depois emissão nativa
Crédito: onde a tokenização pode encontrar fricção suficiente para realmente importar
Se ações já possuem ótima infraestrutura, mercados de crédito privado oferecem quase o cenário oposto.
- Documentação fragmentada
- Originação complexa
- Servicing
- Garantias
- Transferências menos padronizadas
- Mercados secundários limitados
- Dados dispersos
Esse conjunto de características torna crédito uma das áreas mais interessantes para tokenização.
A McKinsey coloca empréstimos e securitização entre as categorias com caminho mais rápido para adoção relevante até 2030, juntamente com fundos e títulos. Sua projeção-base para ativos tokenizados — excluindo criptomoedas e stablecoins — é de aproximadamente US$ 2 trilhões naquele ano, com crédito e securitização entre os principais vetores. McKinsey & Company
A lógica é clara.
Quanto maior a fricção atual, maior pode ser o ganho marginal de uma infraestrutura melhor.
Mas tokenizar crédito não melhora o devedor
Essa ressalva precisa ser repetida.
Imagine um empréstimo de R$ 10 milhões.
Ele pode ser dividido em milhares de unidades digitais.
- Pode ser distribuído
- Pode ser transferido
- Pode ter pagamentos registrados on-chain
Nada disso altera uma pergunta essencial:
- o devedor consegue pagar?
- O risco fundamental continua sendo crédito
- Capacidade de pagamento
- Alavancagem
- Garantias
- Covenants
- Qualidade da gestão
- Fluxo de caixa
- Tokenização pode reduzir custo administrativo
- Pode ampliar distribuição
- Pode aumentar transparência
- Pode melhorar servicing
Não pode transformar um mau crédito em bom crédito.
E existe um risco importante aqui.
Se a tecnologia torna muito mais fácil distribuir crédito, ela também torna muito mais fácil distribuir crédito ruim.
Por isso, quanto mais eficiente se torna a infraestrutura de distribuição, mais importante se torna o underwriting.
Recebíveis: um caso natural para ativos programáveis
Recebíveis são especialmente compatíveis com tokenização.
Existe uma obrigação econômica relativamente clara.
- Alguém deve
- Existe um valor
- Um vencimento
- Uma origem
- Um histórico de pagamento
- Podem existir garantias
Em uma arquitetura digital, esses direitos podem ser registrados, transferidos e monitorados de maneira mais integrada.
O potencial está menos em “criar tokens de recebíveis” e mais em digitalizar o ciclo inteiro:
originação;
validação;
cessão;
registro;
servicing;
pagamento;
reconciliação.
Imagine uma carteira de recebíveis cuja performance é atualizada continuamente.
O investidor consegue acompanhar inadimplência.
- Amortizações
- Concentração
- Eventos
A representação financeira começa a estar mais conectada ao comportamento real do ativo.
Isso pode reduzir assimetria de informação — um dos principais problemas dos mercados privados.
Private credit pode ser mais importante do que ações tokenizadas
Essa tese parece contraintuitiva porque ações recebem muito mais atenção pública.
Mas a tokenização não é necessariamente mais valiosa onde o mercado é maior.
Pode ser mais valiosa onde o mercado é menos eficiente.
Private credit possui justamente as características que tornam uma infraestrutura programável interessante.
- Menor padronização
- Mais documentação
- Baixa liquidez
- Processos manuais
- Distribuição restrita
- Necessidade intensa de dados
Isso explica por que crédito e securitização aparecem entre as primeiras ondas nas projeções da McKinsey. McKinsey & Company
Para a MTX Capital, essa é uma das áreas centrais da tese de longo prazo.
Real assets: o ativo físico continua parado, mas seus direitos começam a se mover
Real assets levam a discussão para outra dimensão.
- Energia
- Infraestrutura
- Imobiliário
- Projetos produtivos
- Esses ativos não são digitais
- Uma usina não está na blockchain
- Um prédio não está na blockchain
- Uma rodovia não está na blockchain
Mas seus direitos econômicos podem ser digitalizados.
- Equity
- Dívida
- Recebíveis
- Garantias
- Participações
- Renda
- Fluxos de caixa
A tokenização pode tornar essas camadas mais móveis mesmo quando o ativo físico permanece exatamente onde está.
Essa é uma diferença conceitual poderosa.
A imobilidade física do ativo não precisa significar imobilidade financeira do capital.
Real estate é um exemplo perfeito
Um prédio de R$ 100 milhões é altamente indivisível fisicamente.
Mas economicamente, várias estruturas podem representar exposição a ele.
- Uma sociedade
- Um fundo
- Dívida
- Recebíveis
- Renda
- Participação
A tokenização pode digitalizar alguma dessas camadas.
Mas, como vimos no artigo dedicado ao tema, é preciso resistir à ideia de que fracionamento por si só cria um novo mercado.
O ativo continua dependendo de fundamentos imobiliários.
- Localização
- Ocupação
- Renda
- Preço
- Demanda
- Governança
Tokenização pode tornar sua infraestrutura financeira melhor.
Não torna concreto líquido por natureza.
Energia e infraestrutura: onde o fluxo de caixa é mais importante que o ativo físico
Imagine uma usina solar.
O investidor não compra painéis porque gosta de painéis.
Compra uma estrutura capaz de gerar fluxo de caixa.
- O valor econômico está no contrato
- Na geração
- Na receita
- Na disponibilidade
- Na contraparte
- No financiamento
- Nas garantias
Se esses direitos econômicos forem representados digitalmente, podemos criar uma infraestrutura capaz de acompanhar melhor:
produção;
receita;
serviço da dívida;
reservas;
distribuições;
garantias.
O ativo começa a ficar mais conectado à sua própria performance.
Isso pode ser particularmente interessante em projetos de infraestrutura, onde investidores precisam acompanhar dados operacionais ao longo de anos.
O ativo “vivo”: tokenização mais dados
Esse é um dos conceitos mais importantes para a tese de real assets da MTX.
Hoje, muitos investimentos privados são essencialmente documentos.
- O investidor recebe um contrato
- Depois relatórios
- Depois planilhas
- Talvez uma atualização mensal ou trimestral
No futuro, um ativo digital pode estar ligado a uma infraestrutura de dados muito mais dinâmica.
Não porque toda informação precisa estar on-chain.
Mas porque a representação digital pode funcionar como um identificador capaz de se conectar a fontes verificáveis.
No crédito:
- pagamentos
- inadimplência
- covenants
- Garantias
No imobiliário:
- ocupação
- aluguel
- despesas
- valuation
Na energia:
- geração
- receita
- disponibilidade
Isso aproxima o ativo financeiro da realidade econômica que ele representa.
E essa conexão pode ser tão importante quanto a própria tokenização.
Quanto mais eficiente a distribuição, mais importante a qualidade da originação
Existe uma contradição importante.
Tokenização promete democratizar acesso.
Mas reduzir barreiras de distribuição também aumenta a responsabilidade de quem coloca ativos no mercado.
Se vender determinado investimento para 10 mil pessoas se torna mais fácil, estruturar ativos ruins para 10 mil pessoas também se torna mais fácil.
Isso significa que a tecnologia não diminui a importância dos gatekeepers de qualidade.
- Pode aumentá-la
- Originadores
- Gestores
- Estruturadores
- Agências
- Auditores
- Custodiantes
- Analistas
A nova infraestrutura precisa resolver distribuição sem destruir disciplina.
Esse é um ponto fundamental da visão da MTX Capital.
O futuro dos mercados privados digitais não pode ser simplesmente um marketplace infinito de tokens.
Precisa ser um mercado com curadoria, underwriting, governança e dados.
A arquitetura regulatória começa a acompanhar o mercado
No Brasil, esse debate ganhou uma nova dimensão em julho de 2026.
A CVM instituiu o Grupo de Trabalho de Tokenização para estudar, testar e formular recomendações sobre registro, depósito, custódia, negociação e liquidação de valores mobiliários em infraestruturas DLT. A primeira entrega prevista é uma proposta de regime regulatório experimental. Serviços e Informações do Brasil
Esse movimento é revelador.
O debate deixa de ser apenas sobre classificar tokens individualmente.
- Passa a abranger a infraestrutura inteira
- Como custodiar?
- Como negociar?
- Como liquidar?
- Como preservar direitos?
- Como controlar riscos cibernéticos?
- Como integrar com o mercado existente?
Essa é exatamente a direção que esperamos de uma tecnologia que deixa o laboratório e começa a buscar escala institucional.
O mercado tokenizado não substituirá imediatamente o mercado tradicional
É provável que durante muitos anos convivamos com duas infraestruturas.
- Ativos tradicionais
- Representações tokenizadas
- Emissões nativamente digitais
- Sistemas capazes de converter entre formatos
A DTCC está construindo exatamente uma ponte desse tipo: ativos sob custódia tradicional podem ganhar uma representação digital sem abrir mão das proteções e do registro institucional que já existem. DTCC
Essa coexistência não é sinal de fracasso.
É provavelmente condição para adoção.
Mercados financeiros não abandonam trilhões de dólares em infraestrutura simplesmente porque apareceu uma tecnologia mais moderna.
A nova infraestrutura precisa provar que consegue preservar aquilo que já funciona e melhorar aquilo que não funciona.
O problema das ilhas digitais
Existe um cenário em que todo esse avanço produz pouca eficiência.
- Cada banco cria uma rede
- Cada bolsa cria outra
- Cada fundo fica em uma blockchain diferente
- Cada ativo utiliza um padrão
Cada forma de dinheiro circula em outra infraestrutura.
Nesse cenário, criamos ativos digitais sofisticados...
e passamos os próximos anos construindo pontes entre todos eles.
Seria uma versão moderna do mesmo problema atual.
Fragmentação.
É por isso que o BIS vem enfatizando plataformas integradas e interoperabilidade em sua visão do sistema financeiro tokenizado. Seu relatório de 2026 reforça que a coexistência de diferentes formas de dinheiro e ativos exige mecanismos robustos para permitir interoperabilidade sem comprometer confiança e finalidade da liquidação. Banco de Compensações Internacionais
A pergunta crítica não será apenas onde o ativo está tokenizado.
Será:
com quantas outras partes do sistema ele consegue conversar?
Composabilidade: quando ativos começam a funcionar como peças de infraestrutura
Um conceito central nesse novo mercado é composabilidade.
Em software, diferentes componentes podem ser combinados para criar novas aplicações.
Em finanças tokenizadas, algo semelhante pode acontecer.
Um fundo pode ser utilizado como colateral.
Uma garantia pode financiar outra operação.
Dinheiro digital pode liquidar automaticamente uma compra.
Um ativo pode desencadear pagamentos.
Um crédito pode ser integrado a uma estrutura maior.
É essa capacidade de combinar ativos e regras que pode transformar profundamente mercados.
O BIS utiliza justamente a ideia de ações contingentes e composição de transações para explicar parte do potencial dessas plataformas. Banco de Compensações Internacionais
Propriedade deixa de ser apenas um estado.
Passa a ter comportamento.
A diferença entre acesso, mobilidade e liquidez
Para analisar ativos tokenizados, a MTX considera essencial separar três conceitos.
Acesso significa conseguir comprar o ativo.
Tokenização pode reduzir tickets, facilitar onboarding e ampliar canais de distribuição.
Mobilidade significa conseguir movimentar ou utilizar o ativo.
- Transferir
- Usar como garantia
- Integrar a outras aplicações
Liquidez significa conseguir encontrar contraparte e negociar a um preço razoável.
São coisas distintas.
Um ativo pode ter acesso fácil e liquidez ruim.
Pode ser altamente líquido, mas pouco móvel entre infraestruturas.
Pode ser programável e ainda assim restrito a poucos investidores.
Confundir essas três dimensões é uma das maiores fontes de exagero na narrativa de tokenização.
Qual ativo tem maior probabilidade de ganhar escala primeiro?
Não existe uma resposta única, mas existe uma lógica.
As primeiras ondas tendem a favorecer ativos que reúnam algumas características:
alto grau de padronização;
grande volume;
fricção operacional relevante;
benefício evidente de programabilidade;
arcabouço regulatório relativamente claro;
demanda institucional.
A McKinsey identifica cash e depósitos, fundos, títulos, empréstimos e securitizações como os candidatos mais fortes das primeiras ondas. A consultoria estima aproximadamente US$ 2 trilhões em ativos tokenizados até 2030 em seu cenário-base, excluindo stablecoins e criptomoedas, com cenários de aproximadamente US$ 1 trilhão a US$ 4 trilhões. McKinsey & Company
Essa projeção não deve ser tratada como previsão certa.
Mas a ordem dos ativos é mais interessante que o número.
O mercado tende a tokenizar primeiro onde há retorno sobre investimento claro.
Não onde a narrativa é mais atraente.
O que pode ficar para depois
Ações listadas podem ter grande visibilidade, mas já possuem infraestrutura eficiente.
Obras de arte e ativos colecionáveis podem ser tecnicamente tokenizáveis, mas têm mercados pequenos e difíceis de padronizar.
Imóveis individuais possuem grande apelo intuitivo, porém governança e liquidez podem ser complexas.
Ativos intangíveis dependem de direitos jurídicos muito específicos.
Isso não significa que essas classes não serão tokenizadas.
Significa que o benefício marginal pode ser menos imediato ou mais difícil de capturar.
A tokenização tende a avançar em ondas.
Essa visão é mais realista do que a ideia de que “tudo estará on-chain” simultaneamente.
O mercado não precisa tokenizar tudo
Essa talvez seja uma das conclusões mais maduras sobre o tema.
Se um sistema tradicional já é barato, rápido, líquido e eficiente, migrá-lo para blockchain pode produzir pouco valor.
- Tecnologia possui custo
- Desenvolvimento
- Integração
- Custódia
- Compliance
- Segurança
- Governança
Por isso, cada caso precisa justificar sua existência.
O ativo tokenizado precisa responder:
- qual fricção foi reduzida?
- Qual nova funcionalidade foi criada?
- Qual custo caiu?
- Qual risco diminuiu?
- Qual mercado foi ampliado?
Se não existe uma boa resposta, talvez o token seja dispensável.
MTX Asset Tokenization Matrix
Na Jornada MTX Circle, podemos organizar o potencial de cada classe de ativo a partir de cinco perguntas.
Dimensão
Pergunta central
Fricção atual
Quanto custo, tempo e fragmentação existem hoje?
Programabilidade
Há eventos financeiros que podem ser automatizados?
Mobilidade
O ativo ganha valor se puder ser utilizado em novas infraestruturas ou como colateral?
Padronização
Direitos, dados e eventos são suficientemente claros para escala?
Mercado
Existe demanda real, distribuição e possibilidade de liquidez?
Quanto melhor o ativo pontuar nessas dimensões, mais forte tende a ser o caso econômico para tokenização.
Esse framework leva a uma conclusão importante.
O melhor candidato não é necessariamente o ativo mais valioso.
É aquele onde a nova infraestrutura resolve mais problemas.
A tese da MTX Capital: bons ativos, infraestrutura melhor
A MTX Capital não enxerga tokenização como substituição dos fundamentos de investimento.
Nossa tese é mais disciplinada.
Existe um universo gigantesco de ativos de qualidade que opera sobre infraestruturas com muita fricção.
- Private credit
- Recebíveis
- Infraestrutura
- Energia
- Real estate
- Fundos privados
- Esses mercados possuem valor econômico real
- Possuem fluxo de caixa
- Possuem empresas e projetos
Mas frequentemente apresentam:
baixa liquidez;
tickets elevados;
distribuição limitada;
dados fragmentados;
custos operacionais relevantes.
É exatamente aí que a tokenização pode criar valor.
Não criando novos fundamentos.
Mas criando melhores trilhos para os fundamentos existentes.
O token não é o produto final. É o começo da infraestrutura.
Quando um título é tokenizado, a transformação não terminou.
- Ela começou
- Ele precisa conversar com dinheiro
- Custódia
- Colateral
- Mercados
- Sistemas de identidade
- Dados
- Outras redes
Quando um fundo é tokenizado, precisamos perguntar como ele será utilizado.
Quando um crédito é tokenizado, precisamos saber como será monitorado.
Quando um ativo real é tokenizado, precisamos garantir que a representação continua conectada ao mundo jurídico e econômico.
Esse é o ponto em que o mercado sai da emissão e entra na infraestrutura.
E é nessa transição que a maior parte do valor tende a ser criada.
Da representação à propriedade funcional
Ao longo da história, possuir um ativo significou principalmente ter um direito reconhecido.
- Esse direito era registrado em papel
- Depois em bancos de dados
- Agora pode ganhar uma camada adicional
- Pode ser programável
- Transferível
- Componível
- Utilizável como garantia
- Integrado a dinheiro
- Conectado a dados
Essa transformação não muda a essência da propriedade.
Mas muda sua utilidade.
E talvez essa seja a melhor forma de compreender ativos tokenizados.
Não são necessariamente ativos novos. São ativos conhecidos ganhando novas capacidades.
Conclusão: a grande transformação é fazer o ativo trabalhar mais
A primeira geração de tokenização perguntou:
“Conseguimos colocar esse ativo em blockchain?”
A próxima geração precisa perguntar:
“Depois que colocamos, o que melhorou?”
Essa diferença separa experimento de infraestrutura.
Um título público tokenizado pode servir como colateral mais móvel.
Um fundo pode transformar caixa ocioso em liquidez programável.
Uma ação pode ganhar novos canais de distribuição e utilização.
Um crédito pode ser administrado de maneira mais integrada.
Um recebível pode carregar dados e fluxos mais transparentes.
Um real asset pode aproximar seu fluxo de caixa do investidor.
Nenhuma dessas transformações cria valor do nada.
Elas reorganizam o modo como valor existente circula.
É por isso que o futuro da tokenização não será definido pela quantidade de tokens emitidos.
Será definido pela quantidade de ativos que passam a funcionar melhor.
E isso reforça a tese central da MTX Capital:
O ativo continua sendo a fonte do valor. A tokenização pode transformar a eficiência com que esse valor é registrado, distribuído, utilizado e liquidado.
Talvez o sistema financeiro da próxima década não seja composto por novas classes de ativos completamente desconhecidas.
Talvez seja composto principalmente pelos mesmos ativos que conhecemos hoje.
- Dinheiro
- Títulos
- Fundos
- Ações
- Crédito Imóveis, infraestrutura, recebíveis — só que funcionando sobre trilhos diferentes: mais programáveis, mais integrados, mais interoperáveis e mais continuamente disponíveis.
E, sobretudo, capazes de interagir uns com os outros de maneira que a arquitetura atual ainda torna difícil.
É nesse momento que ativo tokenizado deixa de ser uma curiosidade tecnológica e começa a se tornar infraestrutura financeira.